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terça-feira, 23 de julho de 2013

O ANTIGO TESTAMENTO



Muitos séculos antes de o primeiro autor hebreu escrever uma palavra em um manuscrito de pele de carneiro, contadores de história preservaram a épica história dos israelitas.

Relatos da criação, Noé e o Dilúvio, a Torre de Babel e a longa caminhada de Abrão a Canaã eram passados oralmente de geração a geração.

Os contadores de história talvez tenham sido as pessoas mais velhas da famílias, os líderes comunitários, ou apenas pastores com extraordinários dons de memória e recitação.

Entre os hebreus, tinham-se em grande conta os contadores de história, pois eles narravam não apenas a crônica de uma nação, mas a história da relação de Deus com seu povo eleito.

Seus relatos passaram a ser tão conhecidos que os ouvintes queriam que eles os recontassem da mesma maneira todas as vezes.

Ninguém sabe quando as histórias da Bíblia começaram a ser escritas. Mas Moisés é o primeiro hebreu que a Bíblia identifica como autor.

Depois que os israelitas do Êxodo atravessaram o mar Vermelho, rechaçaram um ataque dos amalequitas. Disse, então o Senhor a Moisés: “Escreve isto num livro, para servir de monumento, e faze-o ouvir a Josué”. Ex. 17.14.

Se essas palavras eram entendidas pelos israelitas como sagradas, a Bíblia não diz, mas os textos que se seguiram nos meses e anos posteriores certamente o eram.

Quando Moisés desceu do monte Sinai com os Dez Mandamentos, escritos nos dois lados das duas tábuas, trazia nas mãos “a obra de Deus, como era a escritura, que estava gravada nelas” Êx. 32.16.

Depois, quando os israelitas acampavam no sopé da montanha, Deus deu a Moisés um conjunto detalhado de prescrições segundo as quais os hebreus deviam viver.
Esta lei mosaica, acha-se enredada nas histórias do êxodo, Levítico e Números, depois resumida no Deuteronômio.
Escreveu pois Moisés esta lei, e a entregou aos sacerdotes filhos de Levi, que levavam a arca do concerto do Senhor, e a todos os anciãos de Israel” Deut, 31.9.

OS CINCO LIVROS DE MOISÉS

Segundo a tradição judaica, Moisés escreveu os cinco primeiros livros da Bíblia, incluindo as histórias do Gênesis, que passaram centenas de anos antes de seu nascimento.
Embora nenhum dos cinco livros identifique seu autor, a autoria de Moisés prosseguiu incontestada até o século XVII. Mas, mesmo nos tempos antigos, estudiosas da escritura detectaram indícios de que Moisés talvez não tenha sido o único autor da coletânea de cinco livros conhecida como Pentateuco.

Entre estes indícios, o mais óbvio é que Deuteronômio termina com uma descrição da morte e enterro de legislador.

O filósofo inglês Thomas Hobbes, no século XVII, tornou-se o primeiro de que se tem registro a declarar que Moises provavelmente não escreveu a maior parte dos cinco livros.

Teólogos apoiaram essa ousada afirmação, compilando indícios que sugeriam que muitos profetas e sacerdotes orientados por Deus tiveram participação na escrita.
Argumentaram, por exemplo, que a repetida frase “até hoje” do pentateuco parece uma referência óbvia a um tempo muito posterior àquele em que ocorreram os fatos – provavelmente uma referência do período em que os hebreus reuniram uma extensa série de fontes que se referiam a Moisés e compilaram o que se tornou conhecido como os Cinco Livros de Moisés.
O início provável do trabalho nestes livros – a história mais antiga dos hebreus – foi depois do estabelecimento de Israel como nação, durante o reinado do rei Davi, que começou cerca de 1000 a.C.
O pentateuco foi adquirindo sua forma final, enquanto os escribas do palácio e os sacerdotes do templo registravam a continuação da história de sua nação.
Músico escreviam salmos de louvor e dor; estudiosos reuniam preciosas citações de sabedoria para os jovens, profetas pregavam a Palavra de Deus. Muitas destas palavras faladas e escritas integraram a liturgia hebraica e foram abraçadas pelas pessoas como os textos dos hebreus: a futura Bíblia.

REDESCOBRINDO A LEI

Como e quando essa memória e revelação se tornaram as escrituras sagradas dos judeus continua sendo um mistério.

Um marco histórico, contudo, foi o dia em que um sumo sacerdote descobriu um pergaminho há muito esquecido, durante a renovação do templo 350 anos de Salomão, em cerca de 620 a.C. o pergaminho pode ser uma versão do Deuteronômio, um resumo das leis judaicas no pentateuco, pois o sacerdote disse: “ Eu achei um livro da Lei na casa do Senhor” II Rs. 22.8.
O rei Josias ordenou que o documento fosse lido em público para todos os anciãos hebreus. Depois iniciou uma vigorosa reforma nacional em que depôs sacerdotes pagãos e destruiu santuários idólatras.

Um segundo marco histórico na criação da Bíblia hebraica veio 160 anos depois, quando uma nova nação judia começou a erguer-se das cinzas de uma terrível derrota. Retornando do exílio na Babilônia, uma escassa comunidade de judeus congregou-se em meio às ruínas queimadas de Jerusalém.

Ali, “Disseram a Esdras escriba que trouxesse o livro da Lei de Moisés, que o Senhor tinha prescrito a Israel” Ne. 8.1 – os cinco livros tradicionalmente atribuídos a Moisés – ou pelo menos partes dispersas que continham as leis judaicas.
Os exilados de volta a Israel tinham motivos para acreditar nas palavras: a lei mosaica adverte que, se os israelitas desobedecessem, o Senhor enviaria invasores e “te espalhará por todos os povos desde uma extremidade da terra até os seus fins” Deut. 28.64. Sendo assim, os exilados de volta a Israel temiam que pudesse acontecer de novo.

Os judeus dividem sua Bíblia em três partes: a Lei, ou Torá; os Profetas; e as Escrituras.

Estudiosos acham que os judeus aceitaram seu cânone bíblico atual em estágios, a começar com a Lei, logo após o trágico exílio na Babilônia.
Talvez a leitura de Esdras, por volta de 458 a.C., tenha formalizado esse estágio inicial. Nos séculos seguintes, o povo passou a reverenciar os oito livros dos Profetas: Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Profetas Menores reunidos em um único rolo de pergaminho.

Por volta do ano 180 a.C., o autor do deuteronômio de Sirac mostra que os Profetas eram vistos como sentenciosos: fala repetidas vezes dos livros da Lei e dos Profetas, junto com outros livros.
Por volta do ano 100d.C., os judeus aceitaram os 11 livros das Escrituras: Salmos, Provérbios, Jó, Cântico de Salomão, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras-Neemias em um único rolo de pergaminho e I e II Crônicas em um único rolo de pergaminho.

No início do primeiro século cristão, antes de o cânone judeu ser estabelecido, Jesus descreveu as escrituras de Israel como “tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, e nos Profetas, e nos Salmos” Lc. 24:44, dando a entender que nem todas as Escrituras foram reconhecidas. Mas talvez a prova mais forte de que a Bíblia hebraica evoluiu aos poucos esteja na Septuaginta, a antiga tradução grega das escrituras hebraicas, que deve seu nome aos 70 eruditos judeus que, em meados de 200a.C., traduziram o Pentateuco para o grego.

Ao longo dos dois séculos seguintes, outros livros dos judeus foram paulatinamente acrescentados até a Septuaginta incluir todo o Antigo Testamento atual – e mais. Os outros livros, escritos entre 300 a.C., e 70 d.C., passaram depois a ser conhecidos como Apócrifos.

POVO DO LIVRO

Quando Roma esmagou a revolta dos hebreus em 70 d.C., destruindo Jerusalém e o templo, exterminou o sistema sacrificial no qual se construiu a fé judaica. Sem o templo – que jamais foi reconstruído – não poderia haver sacrifícios nem sacerdócio. Os judeus voltaram-se para suas escrituras e tornaram-se um povo do Livro, e este livro é a Bíblia hebraica.
Havia um problema: o Livro tinha muitos textos contestados e muitas versões. Assim, os judeus resolveram estabelecer quais textos e versões eram autorizados e se decidiram por 24 livros. (Os cristãos mais tarde dividiram esses mesmo 24 livros em 39, separando os livros de Samuel, Reis, Esdras-Neemias e Crônica em dois cada, e os doze Profetas Menores).
O exemplar mais antigo da Bíblia hebraica é o Códice de Leningrado de 1008, copiado por escribas chamados Massoretas. Este e outros massorêticos tornaram-se as edições oficiais em que se baseia a maioria das traduções modernas.
Os Manuscritos do Mar Morto, a biblioteca de uma comunidade do deserto, destruída pelos romanos em 68 d.C., continham manuscritos mil anos mais antigos que os textos massoréticos, incluindo fragmentos de rolos inteiros de todo livro do Antigo Testamento, com exceção de Ester.
Entre estes tesouros antigos, descobertos em 1947, encontra-se um pergaminho de Isaías copiado cerca de 100 a.C., O texto hebraico, como o de outros descobertos em grutas próximas ao mar Vermelho, revelou-se semelhante aos massoréticos – forte indicação de que as escrituras judaicas vinham-se padronizando por volta do século I a.C, e que escribas posteriores preservaram as palavras sagradas com extraordinário cuidado e reverência.